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Cabo Verde investe em talento para levar startups ao mercado global

Redação Recifes
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Cabo Verde investe em talento para levar startups ao mercado global

Até recentemente, a maioria dos brasileiros sabia pouco (ou nada) sobre Cabo Verde. A Copa do Mundo de 2026 mudou esse cenário, colocando o arquipélago no radar internacional após uma campanha histórica que o levou aos mata-matas como a menor nação a alcançar essa fase. Mas há muito mais que futebol na história de Cabo Verde. Fora dos gramados, o país, com cerca de 530 mil habitantes distribuídos por 10 ilhas — população semelhante à da Subprefeitura de Itaquera, na zona leste de São Paulo —, começa a mostrar ao mundo outras facetas, entre elas um ecossistema de tecnologia que vem ganhando força.

Em maio do ano passado, o país inaugurou um parque tecnológico voltado a receber empresas de base digital, incluindo negócios de fora de Cabo Verde. Batizada de TechPark.CV, a estrutura marca um novo momento para o ecossistema local de startups, ainda pequeno, mas com sinais de amadurecimento.

“A infraestrutura é uma das melhores. Acho que fica no mesmo nível, ou até superior, que a de alguns parques tecnológicos no Brasil”, afirma Marcos Jamir, fundador da AfricanDev, plataforma que conecta talentos de tecnologia da África a empresas no Brasil.

Educação como alicerce

Um dos pontos fortes do desenvolvimento do ecossistema cabo-verdiano é a formação técnica e digital. O país mantém programas públicos de qualificação profissional e iniciativas voltadas à inserção de jovens no mercado de trabalho digital. Entre elas está o Skodji Digital, do Governo de Cabo Verde, que oferece cursos gratuitos para desenvolver competências digitais e de negócios em áreas como TI, Administração, Comércio, Turismo, Serviços e Indústrias Criativas.

Outra frente é o Cabo Verde Digital, plataforma do governo voltada a fortalecer a comunidade de tecnologia e apoiar a construção do ecossistema digital por meio de formação e empreendedorismo. A iniciativa reúne programas que vão da escola de codificação para jovens a bolsas de estudo para criação de empresas, além de ações para atrair nômades digitais ao país.

No ensino superior, a Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), por meio da Faculdade de Ciências e Tecnologia, mantém cursos de graduação e pós-graduação em áreas ligadas à tecnologia. Em 2025, a instituição abriu a primeira turma do mestrado em Engenharia Informática, com disciplinas como deep science, deep learning, IoT e segurança de sistemas.

O apoio também se estende à relação entre governo e empresas. O Governo Aberto às Startups funciona como um canal direto entre founders e o poder público para apresentar soluções, identificar obstáculos e discutir medidas de fortalecimento do ecossistema.

Helga Ortet, fundadora da SoldOut, startup cabo-verdiana de venda online de ingressos para eventos, considera o país “muito conectado” para o seu tamanho, apesar das resistências culturais à adoção de tecnologias digitais. Ela também destaca a expansão da formação técnica nos últimos anos, com iniciativas voltadas inclusive a pessoas sem experiência prévia no setor.

“Há programas para quem nunca aprendeu programação, além de iniciativas para quem deseja se aprofundar e se conectar com outras pessoas”, afirma. Ela cita ainda a atuação da Women in Tech, comunidade global criada para fomentar a participação feminina na área de tecnologia, em Cabo Verde.

Segundo Helga, tecnologia é uma das áreas que mais atraem pessoas em busca de qualificação no país, impulsionada pela demanda dos mercados interno e internacional.

Os primeiros cases

Apesar dos investimentos em infraestrutura, o ecossistema de startups do país ainda é incipiente. “Temos algumas empresas performando bem, mas o ecossistema avança lentamente, por sermos um país muito pequeno”, observa Marcos, da AfricanDev. Para ele, o tamanho reduzido do mercado é o principal obstáculo para quem empreende em Cabo Verde. “Não temos mais do que 15 grandes empresas onde você consiga fechar um contrato que empregue muitas pessoas.”

Entre os cases mais citados do ecossistema está a Sintaxy, empresa de desenvolvimento de software e transformação digital criada em 2014 e hoje com atuação em países como Estados Unidos, Portugal e Inglaterra. Também aparecem a NhaBex, fundada em 2015 com soluções para a gestão de filas de espera em bancos, postos de saúde e prefeituras, e a RiftOne, startup que fornece software e hardware para acesso remoto à internet e plataformas digitais, incluindo um dispositivo que funciona como um mini computador inteligente.

A SoldOut, de Helga, opera desde 2017 e tem a brasileira Sympla como principal benchmark. O mercado local pequeno, porém, limita a escala. Segundo a empreendedora, os eventos que já adotam a venda de ingressos online costumam reunir cerca de mil pessoas, enquanto festivais com público de até 30 mil ainda vendem seus ingressos majoritariamente de forma física.

Já a Africandev, de Marcos, nasceu em 2023 para ajudar a suprir a escassez de talentos no mercado brasileiro e, ao mesmo tempo, conectar profissionais africanos a oportunidades de trabalho. Na visão de Marcos, os setores de saúde e entretenimento são hoje os mais avançados tecnologicamente no país. Ele vê potencial também no mercado de fintechs, mas avalia que o segmento esbarra em entraves regulatórios. “O governo às vezes complica. Temos tecnologias já criadas em Cabo Verde que não conseguem ser implementadas.”

O que falta para o ecossistema deslanchar

Apesar do apoio institucional, Helga questiona a efetividade dos incentivos existentes no médio prazo. “Todos os anos surgem novas startups, mas muitas acabam morrendo. É importante pensar em incentivos para que elas consigam se desenvolver e escalar, e não apenas para que sejam criadas”, afirma a fundadora da SoldOut. Segundo ela, o poder público ainda não acompanha de forma suficiente quantas dessas empresas permanecem ativas, pagando suas contas e gerando empregos anos depois de serem fundadas.

O acesso a capital de risco é outra lacuna. Segundo a African Private Capital Association (AVCA), startups do continente levantaram US$ 3,9 bilhões em 2025, distribuídos em 506 rodadas. Desse total, US$ 2,1 bilhões vieram de rodadas de venture capital (equity), uma queda de 21% em relação ao ano anterior, em meio ao período de retração global do mercado de venture capital.

Olhando especificamente para Cabo Verde, dados da plataforma Tracxn de 2026 registram mais de 90 startups no país. Dessas, 20 receberam financiamento e levantaram, juntas, US$ 28,2 milhões. Já o StartupBlink aponta 64 startups ativas, que representam 3% de todas as startups da África Ocidental. Segundo a plataforma, o ecossistema cabo-verdiano cresceu 31,3% entre abril de 2025 e abril de 2026.

“Conseguir investimento é uma grande dificuldade. Acho que isso tem a ver com a maturidade dos founders, que ainda estão no começo da jornada”, diz Marcos, destacando que a maioria das startups do país opera com recursos próprios.

Uma ponte em construção

Rui Mucaje, presidente da Câmara de Comércio Afro-Brasileira (AfroChamber), afirma que Cabo Verde conta com apoio institucional tanto do governo quanto da comunidade europeia. A relação com o Brasil, porém, ainda está longe de explorar todo o seu potencial.

Para Rui, a aproximação entre Brasil e África ainda “está aquém daquilo que a gente gostaria que fosse”. Na visão dele, a inovação no continente está hoje mais concentrada em países do leste africano, como Ruanda, Quênia e Etiópia. “Acho que o Brasil deveria desenvolver mais essa relação com o continente africano, não ficar tanto no discurso, mas na ação”, afirma.

A aproximação entre Cabo Verde e Brasil ainda é recente. “É uma relação boa, mas muito nova. Antes da Copa do Mundo, a maioria dos brasileiros nem sabia onde ficava Cabo Verde”, diz Marcos Jamir, da Africandev. Ele destaca a proximidade geográfica ainda pouco explorada — há rotas aéreas diretas entre Recife e o arquipélago — e vê em Cabo Verde uma possível porta de entrada para outros mercados africanos de língua portuguesa, como Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Helga observa que, apesar da proximidade cultural e linguística com o Brasil, a conexão com o mercado português é mais forte. “Conheço várias startups cabo-verdianas que vendem serviços para empresas portuguesas. Com o Brasil, só conheço a AfricanDev”, afirma.

Apesar dos desafios de escala e maturidade, a expectativa entre as fontes é de que o ecossistema local siga avançando. “Temos jovens capacitados a criar coisas extraordinárias, e muitos deles já estão sendo vistos por pessoas de fora. Daqui a alguns anos, estaremos mais maduros e com cada vez mais startups cabo-verdianas se internacionalizando”, projeta Helga.

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Artigo originalmente publicado em startups.com.br
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