De novo, o pesadelo: Hapvida (HAPV3) desaba mais de 20% após balanço. O que deu errado desta vez?. CEO admite erros na gestão da judicialização, enquanto bancos voltam a colocar em dúvida a recuperação da operadora após resultados muito abaixo das expectativas no segundo trimestre The post De novo, o pesadelo: Hapvida (HAPV3) desaba mais de 20% após balanço.
O que aconteceu
Se gato escaldado tem medo de água quente, o investidor de Hapvida (HAPV3) tem mais é que temer as divulgações de balanço da operadora de saúde.
A companhia está desabando na bolsa nesta quinta-feira (13) após publicar os resultados do segundo trimestre de 2026, na noite de ontem (12).
Por volta das 13h, as ações da empresa caiam mais de 23%, negociadas a R$ 7,32.
Por que importa
Os números em evidência (20%, 23%, 0,55%, 42%, 37,2%) ajudam a medir o impacto no dia a dia de empresas e leitores de Mercado financeiro e investimentos.
Consequência prática
No mesmo horário, o Ibovespa desacelerava 0,55%, a 166.566 mil pontos.
Cabe lembrar que essa não é a primeira (nem a segunda) vez que a ação derrete após a divulgação de um balanço.
No terceiro trimestre do ano passado, por exemplo, a queda foi de 42%.
Depois de ter dado um breve sossego na última safra, com os planos da administração para virar o jogo, o mercado parece estar se dando conta de que o buraco é mais embaixo.
Diante da frustração, o CEO Luccas Adib não tentou colocar panos quentes sobre um dos principais problemas nos números de ontem: a judicialização.
Em teleconferência com investidores nesta quinta-feira (13), ele reconheceu que a operadora de planos de saúde e dentários errou na forma de lidar com o avanço das disputas judiciais e em evitar que esses processos se transformassem em custos maiores para a companhia.
"Esse foi o principal detrator dos nossos resultados, que fez com que os números viessem abaixo do consenso.
Aqui cabe uma autocrítica: estamos errando na execução e calibragem de alguns vetores.
Nosso modelo de gestão jurídica não acompanhou o tamanho do desafio", afirmou o executivo durante a teleconferência.
Além disso, o trimestre continuou marcado por muitos dos problemas que a companhia enfrenta há algum tempo: alta utilização (sinistralidade), diversos contratos em condições econômicas desfavoráveis, elevado endividamento, perda de beneficiários, despesas corporativas elevadas e pressão persistente sobre os custos médicos.
Essa combinação explosiva fez com que o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado da empresa caísse 37,2% em relação ao mesmo período do ano passado, para R$ 504,4 milhões.
O número veio 30% abaixo das estimativas do BTG Pactual, que classificou a cifra como a pior dos últimos cinco anos.
A companhia teve um prejuízo líquido 40,7% maior no trimestre em comparação anual, de R$ 217,1 milhões.
Em base ajustada, a Hapvida reportou um lucro líquido de R$ 12,5 milhões, 94% menor do que os mesmos três meses de 2025.
A sinistralidade de caixa aumentou 3 pontos percentuais (p.p) no ano, para 75,2%.
Para o Safra, o balanço da operadora trouxe "pouquíssimos" elementos para sustentar uma tese de recuperação no curto prazo e a deterioração foi generalizada.
Onde a Hapvida errou?
Sobre a judicialização, Adib reconheceu que a própria estratégia adotada pela Hapvida para lidar com os processos contribuiu para agravar o problema.
Ele afirmou que a companhia levava as disputas até a última instância de forma indiscriminada, sem priorizar os casos ou considerar adequadamente a "qualidade do direito" envolvido — ou seja, sem avaliar em quais situações fazia sentido continuar recorrendo e em quais seria mais eficiente buscar uma resolução antes.
Segundo Adib, essa forma de condução acabou resultando em liminares e bloqueios judiciais que poderiam ter sido evitados.
Segundo a companhia, houve mais despesas relacionadas a depósitos cíveis, o que elevou o sinistro judicial em R$ 37,4 milhões na comparação com os três primeiros meses do ano, para R$ 135,4 milhões.
Esse movimento contribuiu para pressionar os custos assistenciais e a sinistralidade caixa no período.
O efeito também apareceu nas despesas administrativas.
As contingências e tributos passaram de R$ 185,4 milhões no primeiro trimestre para R$ 237,7 milhões no segundo, uma piora de R$ 52,3 milhões, explicada principalmente pelo aumento das contingências cíveis e, em menor medida, por um evento trabalhista pontual de R$ 14 milhões.
Considerando a composição total das contingências e tributos antes do efeito do sinistro judicial e dos itens extraordinários, o montante chegou a R$ 359,2 milhões, equivalente a 4,5% da receita líquida, ante R$ 283,4 milhões, ou 3,6% da receita, no trimestre anterior.
Tanto BTG Pactual, quanto Itaú BBA e Safra destacaram esse como o grande problema nos resultados de abril a junho deste ano.
Fora os impactos no balanço em si, os bancos enxergam a judicialização como a principal fonte de incerteza para os resultados futuros da empresa, já que tornou muito mais difícil projetar um nível “normal” de lucro da Hapvida.
A questão agora é colocada como um dos principais obstáculos para a recuperação da empresa.
O que mais virou um problema?
A judicialização está longe de ser a única dor de cabeça da Hapvida.
Um pente-fino da administração encontrou problemas que vão dos contratos pouco rentáveis à ociosidade da rede própria — e a ordem agora é priorizar margem e geração de caixa, mesmo que isso custe parte da base de clientes.
Um dos principais focos está justamente nos contratos que não entregam retorno suficiente para a operadora.