Cerca de 30% dos brasileiros têm mau hálito. E nove em cada 10 casos de halitose (outro nome para a condição) têm origem na própria boca, de acordo com pesquisas. O problema pode afetar a autoestima e os relacionamentos e muitas vezes está ligado à higiene bucal, mas nem sempre.
Entre as causas mais comuns estão a saburra (camada de células velhas e bactérias na língua, que a deixa branca), acúmulo de placa bacteriana (filme pegajoso de bactérias nos dentes), cáries (buracos nos dentes causados por ácidos), gengivite (inflamação e sangramento da gengiva) e periodontite (infecção grave que destrói o osso do dente). A redução do fluxo de saliva na boca, ficar muito tempo sem comer nada ao longo do dia, fumar um cigarro atrás do outro e alguns hábitos alimentares também podem favorecer o problema.
Mas a principal dúvida, especialmente para quem sofre com a condição, é se é realmente possível eliminar a halitose de vez. A resposta é: depende.
“Quando a halitose está relacionada a um problema pontual, como gengivite, acúmulo de placa ou saburra lingual, o tratamento da causa pode resolver o problema”, explica a cirurgiã-dentista Diana Fernandes.
Por outro lado, segundo a especialista, algumas pessoas apresentam fatores que favorecem a halitose de forma recorrente, como boca seca, doenças periodontais ou determinadas condições sistêmicas. Nesses casos, pode ser necessário manter uma rotina contínua de cuidados e acompanhamento profissional.
Ou seja, em alguns casos é possível eliminar a causa do problema. Em outros, o objetivo pode ser controlar os fatores que favorecem o mau hálito.
Odor pode indicar caminho, mas não é suficiente
O odor, de acordo com Fernandes, pode fornecer algumas pistas sobre a origem da halitose, mas não é possível determinar a causa com 100% de segurança apenas pelo cheiro. “Existem odores característicos associados a algumas condições, mas a avaliação clínica é fundamental para identificar a origem.”
Para chegar à origem, o dentista deve fazer um exame completo dos dentes, das gengivas, da língua e da saliva, além de investigar possíveis infecções e os hábitos do paciente. Quando necessário, segundo a especialista, o profissional pode usar equipamentos específicos para medir os compostos relacionados à halitose.
Veja também: Mau hálito | Tira-dúvidas com especialista #02
Como é feito o tratamento?
O tratamento vai depender de onde vem a halitose. Se há cárie, por exemplo, o profissional vai tratar a doença e outras condições bucais. Se a boca seca contribui para o mau hálito, o tratamento será direcionado para essa condição.
Independentemente da causa, a higiene bucal adequada é sempre recomendada: escovação dos dentes, uso de fio dental, limpeza da língua, enxágue da boca, boa hidratação e consultas regulares ao dentista.
E não existe uma intervenção única com garantia de resultado para todo mundo. A Cochrane, uma das referências mais respeitadas em medicina baseada em evidências, publicou em 2019 uma revisão sistemática sobre intervenções para halitose. Foram incluídos 44 estudos, com 1.809 participantes entre 17 e 77 anos. Eles compararam oito formas diferentes de controlar o mau hálito, como limpeza mecânica (exemplo: limpadores de língua e escovas de dente), cremes dentais, enxaguantes bucais, entre outros.
A conclusão foi a seguinte: “Não dispomos de evidências suficientes para afirmar qual intervenção funciona melhor no controle do mau hálito.”
Segundo a cirurgiã-dentista, se, após uma avaliação odontológica completa e o tratamento das possíveis causas bucais, a halitose persistir, o paciente pode precisar de uma investigação médica complementar e ser encaminhado ao especialista adequado.
E quando o problema não está na boca?
Cerca de 90% dos casos de mau hálito têm origem na própria boca. Os 10% restantes costumam estar associados a problemas gastrointestinais, diabetes ou a doenças no nariz e na garganta.
Entre as causas estão as amigdalites e as rinossinusites (nome médico da sinusite) com secreção persistente, além de algumas situações de obstrução nasal que levam à respiração pela boca e ao ressecamento da cavidade oral, segundo Roberta Pilla, otorrinolaringologista da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF).
“Nas amígdalas, existem pequenas cavidades chamadas criptas, onde podem se acumular restos celulares, muco, resíduos alimentares e bactérias. Esse material forma o chamado caseum ou, quando mais endurecido, os tonsilólitos, conhecidos como ‘pedrinhas’ das amígdalas. A degradação desse material pelas bactérias produz compostos voláteis, principalmente compostos sulfurados, responsáveis pelo odor desagradável”, explica a médica.
Nas rinossinusites, o mau hálito ocorre principalmente quando existe secreção persistente.
“Essa secreção pode permanecer na cavidade nasal e escorrer posteriormente para a garganta, contribuindo para o mau odor. Mas é importante lembrar que a sinusite não é a principal causa de halitose e não deve ser responsabilizada automaticamente pelo problema”, alerta.
Já quando respiramos constantemente pela boca, ocorre maior ressecamento das mucosas e redução desse mecanismo de limpeza.
“Com isso, aumenta a concentração de resíduos e a proliferação de bactérias que produzem substâncias responsáveis pelo mau odor. Por isso, pessoas com obstrução nasal persistente, rinite, aumento das adenoides ou outras condições que favoreçam a respiração oral podem perceber piora do hálito, principalmente ao acordar. A boca seca, independentemente da causa, também pode contribuir”, completa a especialista.
Tratamento fora da boca
De acordo com Pilla, quando existe uma doença nasal ou rinossinusal, o tratamento deve ser direcionado para essa condição. É necessário descobrir por que o paciente não consegue respirar adequadamente pelo nariz e tratar esse problema.
Nos pacientes com caseum, medidas de higiene oral, hidratação e gargarejos podem ajudar em alguns casos. Quando o quadro é muito frequente, causa bastante desconforto ou está associado a doença crônica das amígdalas, o otorrinolaringologista pode avaliar outras opções de tratamento. Segundo ela, cirurgias (como a retirada das amígdalas) ficam reservadas para situações bem selecionadas.
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