Talvez ninguém tenha pedido por isso, mas a Roku resolveu fazer algo diferente em sua oferta de canais gratuitos de TV nos EUA. Esta semana, a plataforma colocou no ar um canal cuja programação é totalmente formada por conteúdo gerado por inteligência artificial — o chamado “AI slop”.
Batizado de Fairground AI, ele traz uma grade composta apenas por vídeos sintéticos, exibidos 24 horas por dia e interrompidos somente por anúncios que também são produzidos por IA. A proposta chamou atenção pela qualidade irregular do material, com movimentos truncados, diálogos com pausas artificiais e falhas típicas de geração automática, como objetos deformados e uma física sem qualquer realismo.
O criador do canal, Colin Petrie-Norris, apresentou o Fairground AI como o primeiro canal de TV por streaming inteiramente sustentado por publicidade e dedicado a conteúdo de IA. Segundo a Variety, o material é produzido por criadores que ele recrutou nas redes sociais. Na ocasião, ele prometeu “alcance massivo” e afirmou que o conteúdo se diferenciaria do AI slop comum nas plataformas pela atenção à narrativa, expectativa que os primeiros clipes ainda não confirmam.
Um vídeo compartilhado nas redes resume bem o “conteúdo” que o canal empurra goela abaixo do espectador: um “filme” de IA que aparentemente tenta ser um drama medieval, só que com uma física tão travada que parece se passar na Lua. Se há enredo, ele está magistralmente escondido sob os cortes bizarros entre as cenas, sem falar nos diálogos entregues com a cadência e as pausas estranhas de uma cutscene de videogame de meados dos anos 2000. Ninguém pisca ao falar.
The future of entertainment is here. https://t.co/QYEluVNjH2 pic.twitter.com/jKgnBNKMmp
— Capital-O Opinions (@damespjuffy) August 5, 2026
“Enfim, a IA pode liberar o potencial criativo de pessoas que não sabem escrever, não entendem de ritmo ou transições, não estão familiarizadas com expressões faciais humanas etc.”, ironizou um espectador.
Por mais irregular que seja o formato, a aposta encontra respaldo no comportamento do público. Um estudo da Kapwing estimou que entre 21% e 33% do feed do YouTube já é composto por conteúdo gerado por IA de baixa qualidade, e que mais de 20% dos vídeos recomendados a novos usuários se enquadram nessa categoria. Segundo o mesmo levantamento, os 278 canais puramente sintéticos mapeados somavam 63 bilhões de visualizações, 221 milhões de inscritos e uma receita anual estimada em US$ 117 milhões. Os números sugerem que a decisão da Roku acompanha um filão que já se mostrou rentável nas redes sociais.
Ainda assim, há sinais de saturação. Um estudo da consultoria norte-americana Billion Dollar Boy indica que o entusiasmo do consumidor com conteúdo de criadores feito por IA caiu de 60% em 2023 para 26% em 2025; outro, da Animoto, aponta que 68% associam a presença de pessoas reais à autenticidade de um vídeo.
Sob pressão, o próprio YouTube reagiu: em janeiro de 2026, depois de o CEO Neal Mohan classificar o combate ao “AI slop” como prioridade do ano, a plataforma removeu 16 grandes canais do tipo (11 encerrados e outros 6 com o acervo apagado), o equivalente a cerca de 4,7 bilhões de visualizações e 35 milhões de inscritos.
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