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O ritmo do aquecimento pode mudar o destino da circulação do Atlântico

Redação Recifes
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O ritmo do aquecimento pode mudar o destino da circulação do Atlântico
Foto: RUN 4 FFWPU / Pexels

Pesquisadores da Universidade de Utrecht, nos Países Baixos, identificaram que a velocidade do aquecimento global pode ser tão determinante para a estabilidade da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC, quanto o nível de temperatura atingido. O estudo foi publicado nesta quinta-feira (13) na revista Nature Climate Change.

A pesquisa mostra que um aumento acelerado das temperaturas pode levar a circulação a perder estabilidade em um patamar de aquecimento muito menor do que o previsto em estudos baseados apenas em um limite térmico.

Nas simulações analisadas, a AMOC resistiu a mais de 4°C de aquecimento sob uma elevação lenta das concentrações de CO2, enquanto entrou em colapso perto de 2°C quando a concentração do gás aumentou em ritmo mais rápido.

Os resultados foram obtidos por meio de modelos climáticos desenvolvidos para comparar diferentes velocidades de crescimento do CO2 atmosférico. A conclusão ajuda a explicar por que projeções anteriores chegaram a limites distintos para uma possível ruptura da circulação e reforça que reduzir a velocidade do aquecimento pode diminuir o risco de uma mudança abrupta no sistema oceânico.

Velocidade da mudança altera a resposta do oceano

A AMOC reúne correntes oceânicas responsáveis por transportar águas quentes das regiões tropicais em direção ao Atlântico Norte. Esse mecanismo redistribui calor pelo planeta e contribui para manter temperaturas relativamente amenas na Europa Ocidental.

Há anos, cientistas investigam a possibilidade de a circulação atingir um ponto de inflexão. Nesse cenário, a estrutura atualmente mais intensa da AMOC poderia dar lugar a um estado muito mais fraco em questão de décadas. Entre os fatores capazes de afetar esse sistema estão o aquecimento do planeta e o aumento da entrada de água de degelo proveniente das regiões polares.

O novo trabalho, liderado pelo pesquisador René van Westen, do Instituto de Pesquisa Marinha e Atmosférica de Utrecht, questiona a ideia de que exista uma temperatura única capaz de determinar, por si só, o colapso da circulação. A equipe avaliou a influência da velocidade da transformação climática sobre a capacidade de adaptação do oceano.

Para isso, os pesquisadores executaram duas simulações climáticas com crescimento progressivo da concentração atmosférica de dióxido de carbono. A diferença estava na velocidade dessa elevação: em um caso, o aumento foi de 0,5 parte por milhão ao ano; no outro, chegou a 2,5 partes por milhão anuais, valor comparável ao ritmo atual mencionado no estudo.

Os resultados foram contrastantes. No cenário de mudança mais lenta, a AMOC permaneceu estável mesmo depois de o aquecimento superar 4°C e continuou sem colapsar quando a temperatura chegou a 5°C. Na situação de crescimento mais rápido do CO2, por outro lado, a circulação perdeu estabilidade por volta de 2°C de aquecimento.

A diferença foi atribuída à capacidade de reorganização do oceano. Henk Dijkstra, professor de Oceanografia Dinâmica e um dos autores do estudo, explicou que uma transformação mais gradual permite que diferentes camadas oceânicas, da superfície às maiores profundidades, se ajustem progressivamente às novas condições. Em uma mudança mais veloz, esse processo de adaptação não acompanha a transformação do clima.

Os pesquisadores estimaram que a velocidade crítica do aquecimento fica próxima de 0,3°C por década. Segundo Van Westen, esse ritmo está próximo daquele que o planeta já alcança. A comparação utilizada pelo pesquisador é a de um veículo que se aproxima de uma barreira: quanto maior a velocidade, menos tempo existe para alterar a trajetória.

A pesquisa também procura contextualizar resultados anteriores do mesmo grupo. Em 2024, os cientistas haviam demonstrado, por meio de um modelo climático moderno e complexo, que o aumento da água de degelo no Atlântico Norte pode reduzir a estabilidade da AMOC.

Naquele trabalho, entretanto, a quantidade necessária para atingir a instabilidade foi considerada alta demais para indicar que esse mecanismo, isoladamente, representaria uma ameaça provável à circulação atual.

Outro estudo posterior analisou diferentes trajetórias de aquecimento e apontou um possível ponto de inflexão por volta de 2060, tanto em um cenário intermediário quanto em um de emissões elevadas. Nessas simulações, o limite aparecia próximo de 2,5°C de aquecimento global.

A nova análise oferece uma possível explicação para a divergência entre essas estimativas. Embora a AMOC possa apresentar um limite crítico relacionado à entrada de água de degelo, os pesquisadores sustentam que não há uma temperatura universal que determine sua ruptura. A vulnerabilidade também depende da rapidez com que o planeta se aquece.

Essa conclusão tem implicações para a política climática. O estudo chama atenção para estratégias que consideram apenas a temperatura máxima alcançada e admitem uma ultrapassagem temporária de determinado limite, seguida de uma posterior redução.

Pela lógica apresentada pelos pesquisadores, a velocidade da elevação da temperatura também precisa ser considerada, porque um aquecimento mais lento dá ao oceano mais tempo para se adaptar e reduz o risco de uma perda de estabilidade no curto prazo.

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Artigo originalmente publicado em olhardigital.com.br
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