O pedido de recuperação judicial do Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, não é apenas mais uma notícia empresarial. É um retrato do Brasil.
No processo, o grupo declarou à Justiça uma dívida de R$ 265,2 milhões. Segundo a empresa, a crise foi agravada pela pandemia, pelas mudanças nos hábitos de consumo, pelo crescimento das plataformas de entrega e pela forte elevação dos juros.
Cada empresa tem seus erros, suas decisões e suas responsabilidades. Não se pode atribuir toda dificuldade empresarial ao governo, aos juros ou ao ambiente econômico. Mas também não se pode ignorar o cenário.
Quando empresas de diferentes setores, tamanhos e regiões enfrentam o mesmo problema, já não estamos diante de casos isolados. Estamos diante de uma doença econômica.
O Brasil perdeu a margem
O Brasil se tornou um país muito caro para produzir, empregar e investir. A empresa paga impostos, energia, aluguel, salários, logística, tecnologia, matérias-primas e uma carga burocrática que consome tempo, dinheiro e competitividade.
Do outro lado, encontra um consumidor endividado, com a renda comprometida e cada vez menos espaço para aceitar aumentos de preços. A empresa fica presa.
Se aumenta o preço, perde clientes. Se mantém o preço, perde margem. Se reduz investimentos, perde competitividade.
Se procura capital de giro, encontra juros incompatíveis com a rentabilidade de grande parte das atividades econômicas.
Em maio de 2026, a taxa média do crédito livre para as empresas estava em 25,2% ao ano, segundo o Banco Central.
Que atividade produtiva consegue sustentar esse custo financeiro durante muito tempo?
Uma empresa pode vender, produzir, gerar empregos e até apresentar resultado operacional positivo. Ainda assim, pode quebrar.
Basta que o custo da dívida cresça mais rapidamente do que sua capacidade de gerar caixa. É assim que uma dificuldade conjuntural se transforma em recuperação judicial.
A recuperação virou rotina
O caso do Habib’s não está sozinho. Em 2025, o Brasil registrou 977 processos de recuperação judicial, envolvendo 2.466 CNPJs — o maior número de empresas da série histórica da Serasa Experian.
No mesmo ano, 8,9 milhões de empresas inadimplentes acumularam aproximadamente R$ 213 bilhões em dívidas negativadas.
No agronegócio, foram 1.990 solicitações de recuperação judicial, crescimento de 56% na comparação com o ano anterior.
São produtores rurais, varejistas, indústrias e prestadores de serviços submetidos à mesma combinação: custos elevados, margens comprimidas, crédito caro e consumo enfraquecido.
É claro que existem erros de gestão, expansões mal planejadas e endividamentos excessivos. Mas, quando a exceção se repete tantas vezes, ela deixa de ser exceção. Passa a ser um sinal de que o ambiente econômico está adoecendo quem produz.
O Estado chega primeiro ao dinheiro
O governo brasileiro gasta mais do que arrecada e precisa buscar permanentemente recursos para financiar sua dívida. Para isso, disputa a poupança nacional com as empresas, com as famílias e com os investimentos produtivos.
O Estado chega primeiro ao dinheiro. Como oferece títulos remunerados por juros elevados, acaba absorvendo uma parcela enorme dos recursos disponíveis no país. Para o investidor, financiar o governo muitas vezes oferece uma relação entre risco e retorno mais atraente do que financiar uma fábrica, uma loja, um restaurante ou uma propriedade rural.
O dinheiro segue essa lógica. Vai para a dívida pública e falta para a produção.
Enquanto isso, os juros nominais pagos pelo setor público estão na ordem de R$ 1 trilhão por ano e podem superar esse patamar, dependendo da janela de cálculo. Forma-se uma engrenagem difícil de interromper.
O desequilíbrio fiscal mantém os juros elevados. Os juros aumentam o custo da dívida. A dívida maior exige mais financiamento. E a necessidade crescente de financiamento mantém o crédito caro para quem produz. O país gira em círculos.
O Brasil não resolve: renegocia
Quando as famílias ficam endividadas, aparece um programa de renegociação. Quando as empresas não conseguem pagar seus compromissos, surgem parcelamentos, incentivos e benefícios tributários. Quando o produtor rural perde sua capacidade de pagamento, são criadas linhas emergenciais para alongar as dívidas.
Essas medidas podem ser necessárias para preservar empresas, empregos e atividades econômicas. Mas não resolvem a causa do problema.
O Brasil não resolve suas dívidas.
O Brasil renegocia suas dívidas.
Não recupera a rentabilidade. Prorroga o vencimento.
Não corrige o ambiente econômico. Adia a cobrança.
Não cura a doença. Administra o paciente.
Programas emergenciais tornam-se permanentes. Exceções substituem as regras. Subsídios e créditos direcionados protegem alguns setores, enquanto o restante da economia suporta juros ainda mais altos.
A conta nunca desaparece. Ela apenas muda de endereço. E quase sempre termina nas mãos do contribuinte, do consumidor e de quem não tem acesso aos corredores de Brasília.
A eleição da sobrevivência política
O mais grave é que o Brasil entra novamente em uma eleição sem discutir seriamente um projeto de país.
Serão escolhidos presidente, governadores, senadores e deputados. No entanto, o debate continua concentrado em alianças, pesquisas, ataques, fundos eleitorais, tempo de televisão e distribuição de poder.
Discute-se quem ocupará o governo.
Não se discute como reorganizar o Estado.
Fala-se sobre a próxima eleição.
Quase nada sobre a próxima geração.
Onde está o projeto para controlar estruturalmente o gasto público? Onde está o plano para reduzir o custo do Estado, elevar a produtividade, simplificar o sistema tributário e recuperar a capacidade de investimento? Como devolver competitividade à indústria, segurança ao produtor rural e rentabilidade a quem emprega?
Essas perguntas exigem respostas difíceis. Exigem liderança, capacidade de união, enfrentamento de interesses organizados e uma verdade que quase ninguém deseja dizer em época de eleição: reorganizar o Brasil terá custos e exigirá sacrifícios.
O político escolhe salvar a si mesmo
Grande parte da classe política conhece a gravidade do problema. Sabe que a dívida cresce, que os juros consomem recursos públicos, que as empresas estão perdendo margem e que as famílias estão endividadas.
Sabe também que produtores rurais, comerciantes e industriais enfrentam enormes dificuldades para financiar suas atividades.
O problema já não é falta de diagnóstico.
É falta de disposição política.
Enfrentar as causas da crise significa tomar decisões impopulares, contrariar grupos poderosos e correr riscos eleitorais.
E muitos políticos fizeram sua escolha.
Preferem garantir a própria sobrevivência a trabalhar pela recuperação econômica do país.
Em vez de um projeto nacional, oferecem programas pontuais. Em vez de reformas estruturais, entregam alívios temporários. Em vez de explicar a realidade, distribuem promessas. Em vez de preparar o Brasil para o futuro, preparam suas coligações para a próxima eleição.
A política passa a se alimentar da própria crise que deveria combater.
Quanto mais pessoas dependem de renegociações, benefícios e programas emergenciais, maior se torna o poder de quem controla esses instrumentos.
Cria-se uma espécie de autofagia nacional.
O Estado consome a economia que o sustenta. A política administra os efeitos dessa destruição e depois se apresenta como salvadora daqueles que ela própria ajudou a enfraquecer.
Quem apresentará um projeto para o Brasil?
Sem controle fiscal, aumento da produtividade, redução da insegurança jurídica e recuperação da capacidade de investimento, o país poderá carregar esses problemas até o final da década — e talvez além dela.
A recuperação judicial existe para preservar empresas viáveis, proteger empregos e permitir uma negociação organizada com os credores. Não é sinônimo automático de falência.
Mas não podemos normalizar um país em que famílias renegociam dívidas, produtores pedem prorrogações, empresas recorrem à Justiça e o governo aumenta continuamente sua necessidade de financiamento.
O pedido de recuperação judicial do grupo controlador do Habib’s é apenas o sintoma mais recente.
Outros certamente aparecerão.
A pergunta fundamental não é por que uma rede de restaurantes chegou a esse ponto.
A pergunta é: quantas empresas ainda precisarão pedir socorro, quantos empregos precisarão ser ameaçados e quantos produtores precisarão perder sua capacidade de investir antes que alguém tenha coragem de apresentar um verdadeiro projeto para o Brasil?
Nesta eleição, o país não deveria perguntar apenas quem deseja o poder.
Deveria perguntar quem está disposto a pagar o preço político de reconstruir a nação
*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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